quarta-feira, 29 de julho de 2009

Princesinha do mar


Girou as rodas de sua cadeira, passando pela portada do hotel e atingindo a rua. Já era noite. O céu, pouco estrelado, maquiava-se com dispersas nuvens cinzentas. Jogou a cabeça para trás e respirou fundo, sentindo a brisa do mar bater em seus cachos avermelhados, balançando-os feito molas. Colocando força nos braços, adiantou mais ainda sua cadeira de rodas e, à luz dos refletores, observou a imensidão azul. Na areia, um grupo de negrinhos jogava o futebol e, na calçada, com ondas em preto e branco cuidadosamente cravadas, estavam as barracas. Ali era Copacabana. A orla estendia-se ao infinito e, diante dele, materializava-se a imagem do paraíso. Fechando os olhos, ouviu o barulho dos carros passando à toda velocidade na sua frente e sorriu. Aquele som, tipicamente urbano, lembrava-lhe sua infância em Dorchester, subúrbio de Boston. Lembrava-lhe a inocência de um sonho néscio. Lembrava-lhe as anedotas dos outros meninos em relação a sua deficiência. Deu uma risada sonora ao lembrar-se de seu tio Teddy. Robusto, barbudo, olhos claros como os de um gato sorrateiro. Tinha dez anos quando seu tio o perguntara o que pretendia ser quando adulto. Ele, tolamente, respondera: “Quero ser um super-herói." Sua memória, arguta, ainda se recordava, em detalhes, da expressão do tio ante a resposta: Franzira o cenho e estalara os dedos, como de costume. Temperara a garganta e agachara-se para ficar à sua altura e então, sem ter o que dizer, sorrira. Um sorriso de dúvida. De piedade...

Ele lera em algum lugar que “o homem nunca será feliz, pois sempre busca algo que não pode alcançar. Se o consegue, logo tem seu desejo modificado para outro algo então inalcançável”. Enfim, não estava tão errado, pois, assim como era natural que o mudo desejasse em falar, lhe parecia instintivo que ele, entrevado naquela maldita cadeira metálica desde que nascera, almejasse, por um instante, voar livre como os pássaros e, se possível, salvar vidas como um herói das histórias em quadrinhos que lia com tanto afinco e torpor.

Recuperando-se das garras de seu pensamento, abriu os olhos e arqueou as sobrancelhas, observando os passantes. Namorados apaixonados, bêbados comemorando o nada, idosos apreciando, talvez pela centésima vez, uma noite no Rio de Janeiro. Tornando a cabeça para trás, observou a imponente estrutura de seu hotel. A extensa fachada branca ocupando metade do quarteirão, a porta imponente decorada com detalhes fitamórficos, e, no centro, em letras douradas, o nome: Copacabana Palace Hotel. Respirou fundo novamente, sentindo a corrente de ar e agradecendo aos céus aquela momentânea solidão. Há poucas horas atrás, estava lá dentro do hotel, no grande salão, tirando fotos e conversando com fãs sobre o lançamento de seu mais novo livro em quadrinhos. Gargalhou novamente repensando o quão irônica era a vida. Através de sua imaginação, escrevera livros de super-heróis de considerável sucesso e tornara-se, então, um famoso escritor. Sua criatividade fora avivada o bastante para retratar no papel o que aspirava realizar fisicamente. Pois, apesar de tudo, ele ainda sentia, em seu âmago, uma pontada de sua vontade infantil. Não era completamente feliz... Mesmo no auge de sua carreira e de seus quarenta anos, ainda ambicionava ser o herói de alguém como nos sonhos de outrora... Nem que fosse por alguns segundos fúteis... Nem que fosse para um fútil alguém...

“Hi” – disse uma menina que se aproximara dele – “English speak?”

O escritor abriu os olhos e examinou-a. Ele a vira, pouco antes, encostada no capô de um carro, passando um batom vermelho diante de um espelhinho. Parecia ter uns treze anos. Vestia uma saia curta deixando a calcinha à mostra. Usava um “tomara que caia” dourado e brilhante. O rosto, infantil, fora manchado por um lápis preto sobre os olhos perdidos e um batom extravagante nos lábios finos.

“Fuck?” – perguntou a menina observando o homem estudar seu corpo e arrebitando a bunda.

O homem abriu os olhos, observando a criança. Sentiu a mão infantil passear em suas costas.

“How old are you?” – perguntou, sem entender.

A prostituta pareceu confusa e murmurou a mentira:

“Dezoito. Posso fazer isso, tá? Speak portuguese?”

“No” – respondeu, agitando os braços.

“Ô gringo, eu vi que tu tava me olhando e vim aqui pra ver se rola. Bora logo!” – disse, sem paciência.

Empinou a bunda novamente e disse:

“E então, fuck?”

O escritor ficou mudo em sua cadeira. Observando a criança.

“Trinta pilas. Thirty... Entende? Thirty reais!” – explicou, fazendo um 3 e um 0 com as mãos.

O homem anuiu, sorrindo. Segurou a mão da menina e deslizou-a pelo seu rosto com a barba por fazer.

“Gringo safado! Eu sabia!” – disse, posicionando-se detrás da cadeira e empurrando-o por uma rua escura. Entraram por uma portinhola com uma placa onde estava escrito em letras reluzentes “Motel” e, sem esperar, arranjaram um quarto do primeiro andar. Girando as rodas freneticamente, aproximou-se da cama e jogou-se no colchão. Observou a menina rebolar diante de seus olhos e, lentamente, despir sua escassa vestimenta. Primeiro, tirou a blusa revelando a pele amorenada, queimada pelo sol. Alisou os seios ainda em formação e fez expressão de desejo.

“You to the States” – disse o escritor apontando para a prostituta.

“Você? Me levar pro estrangeiro?” – perguntou a criança desconcertando-se, por um segundo, de sua dança sensual.

“With me. To the States.” – repetiu, chamando a prostituta para a cama. A menina aproximou-se, atônita, de seu cliente já desnudo. Olhos arregalados como uma criança que acaba de ganhar bombons. A seriedade adulta rendendo-se à crendice infantil.

“Está falando sério? Vai mesmo me tirar disso aqui?” – perguntou, sorrindo.

“What?”

“Me and you” – disse ela usando o inglês que aprendera com outros clientes – “To the States. Family?”

“Yeah! A family. You will be my wife and we’ll be happy together!” – respondeu, descendo a mão pela barriga da menina.

A criança alegre, vislumbrou seu futuro promissor enquanto posicionava-se sobre o cliente. Fechou os olhos e, durante todo o ato carnal, imaginou como poderia ser feliz com aquele homem. Pouco importava que ele parecesse seu pai. Pouco importava que ela tivesse apenas catorze anos. O que importava é que, naquele branquelo de cabelos ruivos gritando de prazer, estava sua chance de uma vida melhor. Alimentada pelas palavras incompreensíveis de seu cliente, a prostituta transou enquanto sua mente passeava no paraíso entre carros de marca e roupas de grife. Por fim, adormeceram. Nus, sobre o lençol branco do motel. Como um pai que põe a filha para ninar. Ao acordar, o escritor observou a menina ao seu lado. O corpo moreno contrastando com o lençol. Os cabelos castanhos escondendo os olhos. O sorriso no rosto materializando a sensação do sonho. Sonho que ele ajudara a construir por palavras sussurradas ao seu ouvido... Enquanto vestia sua calça, sorriu satisfeito. Dera para aquela prostituta a oportunidade de sonhar. De sentir, mesmo que na imaginação, o fim daquela podridão profissional. Por alguns instantes, fora para ela um verdadeiro ídolo, um Deus, uma saída, um super-herói... De uma forma ou de outra, limpara a mente daquela criança por uma noite e aguçara seus desejos, sua vontade de mudar e vencer! É isso que os super-heróis fazem, não? Modificam um simples momento de nossas vidas e nos ensinam uma lição eterna para vivê-la... Pouco importava que fosse mentira. Pouco importava se amanhã ela estivesse fazendo ponto no mesmo local. Pouco importava se, no final, tudo o que ela encontrasse fossem os trinta reais combinados na mesinha de cabeceira...


FIM

2 comentários:

  1. gostei do seu personagem paralítico, que nutria o sonho de ser super-herói. Doce ironia do destino. Abraços, Montes.

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  2. Ótimo conto, pena que vc faça poucos =)

    Abraço mano.

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Suicidas, livro de R. Montes - Em breve

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