quinta-feira, 23 de julho de 2009

A professora

Ela já havia tentado o suicídio antes. Cinco vezes. Mas sempre acabava desistindo. O revólver, uma Magnum 608 oito tiros, devolvida à gaveta do esquecimento.
Vez ou outra, sentia a necessidade de pegá-la novamente, de testar o seu peso, o tato frio com o ferro. Nos momentos mais íntimos, levava a arma à cabeça, o cano massageando ameaçadoramente a têmpora, sabendo que bastava puxar o gatilho para dar fim a sua existência insípida.
Apenas puxar o gatilho...
Mas então, ela pensava nos seus alunos. Oh sim, os seus alunos! Como ela os amava! Eram a única coisa que ela realmente possuía de valioso no mundo. Suas mentezinhas infantis, virgens, abertas ao saber que a professora lhes oferecia a cada lição, a cada ensinamento.
E, Deus! era tão fácil encenar para eles! Sobre o tablado, mascarar a sua vida deprimente com sorrisos de simpatia e uma felicidade sublimável suspensa no ar. Eles a adoravam, ela sabia disso! E, de certa forma, era isso que a mantinha viva, sem a coragem de acionar o revólver no momento decisivo. Eles a chamavam de volta! Chamavam-na para a vida, para a aula no dia seguinte... E, nesses momentos, ela se sentia muito feliz, amada e desejada... Como deveria ser!
Eles – seus alunos – não a julgavam. Ao contrário dos adultos com que convivia nas rodas sociais, eles não a encaravam com desdém, um olhar reprovador, ou pior, um olhar de piedade contida só porque ela era gorda.
Sim, ela era gorda! E Deus sabe como era difícil admitir isso... Tantas horas na academia, tantas dietas, tantos livros de auto-ajuda... E tudo para quê? Ela continuava a suportar os comentários furtivos, as perguntas ofensivas – Onde está aquele seu namorado da última festa, querida? – e o jogo de aparências. Tinha a certeza de que era o assunto principal nas rodas quando não estava presente, motivo de risinhos escondidos. Na verdade, podia imaginá-los gargalhando dela, rindo a valer de cada gordura evidente em seu corpo. Nas conversas diárias no conforto de seus lares, podia imaginá-los à mesa do café da manhã, comentando a noite anterior, comentando que ela engordara ainda mais e que, desse jeito, nunca conseguiria um marido e estaria fadada à solidão eterna. Criariam alcunhas, comparações e apelidos internos... Tudo para se divertirem na próxima vez em que a vissem.
E era por isso que ela precisava da arma. Precisava tê-la ali, ao seu alcance. Quando a comprara, há três anos, estava com medo dos freqüentes assaltos a residências naquela área do bairro. Era uma forma de se defender dos bandidos, caso invadissem a sua casa.
Agora, a arma tinha outra função. Servia para defendê-la do mundo, o mundo nocivo lá fora, o mundo que a desprezava por ser gorda, por não ter atrativos físicos, por não ser bonita. A arma era a fuga, o caminho alternativo para quando ela se sentia encurralada, sufocada. Era só puxar o gatilho e se livrar para sempre daquilo tudo. Deixar para trás os amigos fofoqueiros, a preocupação com o corpo, a busca incessante por um amor que nunca viria... Tão simples! Tão fácil!
Naquela manhã, ela acordou com vontade de comer um pão doce. E condenou-se por isso. Ah, ela adorava pão doce! Mas não podia, não podia mesmo! Ficaria mais gorda, mais feia, mais, mais e mais.
Para saciar a vontade, correu para a gaveta. A sua gaveta mágica. Pegou a arma num resfolegar desesperado e ficou mais calma ao senti-la em suas mãos. Carregou o revólver com uma única bala, conforme sempre fazia, levou-o à cabeça e esperou a sensação passar. A adrenalina percorrendo as suas veias, sendo expelida pelos poros.
Esperou vinte minutos, mas a sensação não passou. Diferente das outras vezes, continuou lá, perene, insistente, chamando-a a completar o serviço inacabado. Em alguns momentos, ela chegou a pressionar levemente o gatilho, bastando uma força um pouco maior para explodir a sua cabeça.
Mas o que viria depois? Teria então um mundo melhor onde viver? Nesse mundo, as pessoas não ligariam para o peso das outras? Lá, encontraria alguém que a amasse como os seus alunos?
Os seus alunos!
Lançando um olhar assustado ao relógio da cozinha, viu que estava atrasada. Dali a vinte minutos deveria estar na sala de aula, aplicando a prova bimestral para as crianças! Droga!
Por um segundo, pensou em correr, vestir apressada uma roupa qualquer, pegar o carro na garagem e tentar chegar o mais rápido possível à escola. Talvez chegasse a tempo...
Mas sequer se moveu. Porque a sensação continuava, convidando-a tentadoramente a dar um ponto final em tudo aquilo.
Continuou parada, a arma em punho.
E então, teve uma ideia. Um flash repentino que invadiu a sua mente, revelando uma solução exata. Como não tinha pensado nisso antes?!? Deus, era tão óbvio!
Levar os seus alunos com ela. Matar alguns deles e depois cometer o suicídio. A garantia de que continuaria a ser amada por eles onde quer que fossem parar depois da morte. Sim, era perfeito! O revólver suportava oito balas. Uma para ela. O restante para sete alunos adoráveis que ela escolheria na hora; alunos que, sem dúvida, adorariam morrer com ela. Sim, adorariam! Porque a amavam!
Estava tão feliz!
Extasiada, carregou o tambor com as oito balas e sentiu um arrepio ao ouvir o clique metálico da arma. Guardou-a na pasta, junto do envelope com as provas. Seria tudo tão maravilhoso! Tão divino!
Saiu de casa assoviando uma canção que inventou na hora.

“Desculpem o atraso, crianças. Tive alguns problemas antes de sair de casa.”
Entrou ofegante na sala, o relógio acima do quadro-negro registrando os dez minutos passados.
“Vamos sentar! Vou começar a prova! Guardem os estojos, apenas lápis e caneta em cima da mesa!”
Todos obedeceram as suas ordens. Eram tão bonzinhos! Seria muito difícil escolher apenas sete... Distribuiu as provas e observou-os, com um sorriso, lendo as perguntas que ela propunha. Tão dedicados e inteligentes!
Nenhum deles viu quando ela retirou a arma da bolsa. Não viram quando ela mirou o revólver em direção a suas cabecinhas, perpassando um por um.
Artur, Carol, Clara, Bruno, Mário, Lucas, Vera...
Todos tão queridos! Tão especiais!
Caminhou pela sala, a mão com o revólver estendida para trás.
Parou ao lado do Caio. Sem dúvida, ele seria um dos sete... Os cabelos loiros caindo sobre a testa, os argutos olhinhos azuis que acompanhavam as explicações dela no quadro. Ele era adorável... Teria que ir com ela nessa jornada... Nessa jornada iminente.
E a Joana? Ah sim, ela também estava escolhida! Os cabelos ruivinhos encobrindo a prova sobre a carteira. A Joana a amava! Gostava dela como de uma mãe... Trazia presentinhos e chocolates quase todo mês! Agora era o momento de retribuir todo esse carinho... Teria o privilégio de ser uma das sete. Uma das sete escolhidas.
Anabela levantou o braço e a professora se aproximou solícita para sanar a dúvida... Pobre Anabela! De bela, só tinha o nome... Possuía uma personalidade forte para os seus onze anos, era comunicativa e talentosamente persuasiva... Daria uma ótima advogada. Ou, talvez, uma ótima professora... Sim, ela seria professora, sem dúvida. Exatamente como ela. Uma mulher inteligente, profissional... Mas feia. Feia e gorda. E, assim sendo, acabaria exatamente como ela... Cometendo suicídio, percebendo que acabar com a própria vida é a melhor solução nesse mundo de pessoas magras...
Ela também levaria Anabela. Não porque gostasse especialmente dela – preferia os alunos magros e bonitos -, mas para fazer um favor para a menina. Poupá-la dos anos de tortura e recusa, poupá-la de ouvir os risinhos sacanas a suas costas, poupá-la de toda a dor...
Encostou-se na parede do final da sala, sentindo o coração bater mais forte. Faltava pouco. Estudou as cabecinhas pensantes, inocentes, dedicadas a tirar uma nota dez para alegrar a mãe no fim do mês.
Escolheu os outros quatro sem muita dificuldade.
Sete alunos. Quatro meninos e três meninas.
Caio, Artur, Mário, Pedro, Joana, Clara e Anabela.
Sete sortudos que partiriam com ela.
Os tiros causariam um grande alvoroço no colégio. Sem dúvida, poderiam ouvir os estampidos a quilômetros de distância. A polícia chegaria logo. Ela teria que agir com rapidez...
Respirando fundo, mirou na cabeça de Anabela a poucos centímetros. Sem chances de erro.
Sentiu a alavanca do gatilho brincar com o seu indicador, provocando-o. Fechou os olhos ao puxar o gatilho, deixando que os gritos infantis respondessem ao seu ato. Ouviu passos, o ranger das carteiras, correria... Eles estavam fugindo! Malditos! Estavam fugindo! Como poderiam fazer isso com ela?!?
Deu outro tiro ao léu.
E então, abriu os olhos. Ali estava ela, a menina Anabela, morta. A cabeça empapando de sangue a prova sobre a carteira. O corpo rechonchudo transformado num monte de carne fria e flácida.
E a sala vazia. Os outros a tinham abandonado. Traidores! Medrosos! Haviam optado por continuar nessa vida ingrata, nesse mundo de dietas...
Apenas Anabela estava ao seu lado. Apenas Anabela não a havia traído. Tinha ficado ali, morta, sua imagem e semelhança quando criança. Gorducha e inteligente.
Eram como mãe e filha... Sim, mãe e filha!
Teve vontade de chorar. Mas não havia tempo. Não lhe restava mais nem um segundo sequer. Logo a polícia chegaria.
Caminhou pesadamente em direção ao tablado, seus quarenta e nove quilos dificultando cada passada. Ela era gorda. Sabia disso. E ninguém haveria de lhe dizer o contrário. O espelho não a deixava se enganar. Era só comparar com as mulheres esguias nas revistas, com as modelos na televisão... Era gorda e pronto. Deveria seguir o seu destino, junto de Anabela. Calar os comentários, as críticas e as piadinhas que faziam dela... Calar a todos.
Lançou um último olhar a Anabela. Gorda e feia.
E, então, puxou o gatilho.

3 comentários:

  1. Porra, Raphael, que blogue legal! Quem foi que fez? HAHAHAHAHA. Eu já tinha lido este teu conto, achei foda! abraços.

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  2. oi Raphael...

    Você já ouviu falar do e-blogue?

    Abraços

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  3. Raphael...

    Esse seu texto é fantástico. Sou editor do E-blogue
    http://e-blogue.com/blogs/
    e gostaríamos de ver seu texto no site.
    Entre em contato comigo para podermos estar conversando melhor. Abraços.
    http://www.cisticerco.blogspot.com/

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